O psicólogo Artur Scarpato participou do programa Alternativa Saúde do canal GNT falando sobre Ansiedade e Síndrome do Pânico.
Assista agora os melhores momentos do programa.
"Desenvolvo um tratamento especializado
para pessoas com Síndrome do Pânico desde 1995. Um tratamento eficaz vai além
de controlar as crises de pânico, mas implica em agir
sobre os processos responsáveis pelo início, manutenção e
recaída no Pânico. Além de aprender a regular a ansiedade é necessário
aumentar a tolerância interna a este estado emocional, descontruindo o
transtorno de pânico e assim se preparando para lidar com os estados de
vulnerabilidade e desamparo que desencadearam o processo. Este é o
diferencial de uma abordagem especializada".
Artur Scarpato
Veja também nosso blog: O Estranho que
me Habita
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ILUSTRANDO:
COMO É A SÍNDROME DO PÂNICO
Você pode imaginar o que é sentir isto ?
"De repente os olhos embaçaram, eu fiquei
tonto, não conseguia respirar, me sentia fora da
realidade, comecei a ficar com pavor daquele estado, eu não sabia aonde ia
parar, nem o que estava acontecendo..."
" ...era uma coisa que parecia sem fim, as pernas
tremiam, eu não conseguia engolir, o coração batendo forte, eu estava ficando
cada vez mais ansiosa, o corpo estava incontrolável, eu comecei a transpirar,
foi horrível..."
"Depois da primeira vez eu comecei a temer que
acontecesse de novo, cada coisa diferente que eu sentia e eu já esperava...
ficava com medo, não conseguia mais me concentrar em nada... deixei de sair de
casa, eu não conseguia nem ir trabalhar."
"Quando começa eu já espero o pior,
"aquilo" é muito maior do que eu, o caos toma conta de mim, é como
uma tempestade que passa e deixa vários estragos... principalmente eu me sinto
arrasada. Eu sempre fico com muito medo de que aquilo ocorra de novo... minha
vida virou um inferno."
Por estes relatos, que poderiam ser de diferentes
pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico, é possível identificar o grau
de sofrimento e impotência que estas pessoas sentem ao passar pelas
crises.
A pessoa sente como se estivesse algo muito
errado em seu corpo, que se comporta de modo muito "estranho",
"louco". Porém os exames clínicos não detectam nada de
anormal com seu organismo.
Como entender?
Nas crises de Pânico o corpo reage como se
estivesse frente a um perigo, porém não há nada visível que possa justificar a
reação.
A pessoa reage com ansiedade frente às sensações de
seu próprio corpo, há um estranhamento e um grande susto em relação ao que é
sentido dentro da pele. Num Ataque de Pânico o perigo vem de dentro.
Com a repetição as crises surge um medo de ter
novos ataques de pânico, uma ansiedade antecipatória.
É comum a pessoa começar a restringir sua vida
a um mínimo, limitando toda forma
de estimulação para tentar evitar que "aquilo volte". Assim
a pessoa pode evitar sair de casa, evita lugares e atividades, privando-se
de muitas experiências. Esta evitação começa a comprometer sua vida pessoal
e profissional.
Vamos compreender o que acontece e como se pode
sair desta armadilha.
O QUE É
SÍNDROME DO PÂNICO OU TRANSTORNO DO PÂNICO ?
A Síndrome do Pânico é um transtorno psicológico
caracterizada pela ocorrência de inesperados crises de pânico e por
uma expectativa ansiosa de ter novas crises.
As crises de pânico - ou ataques de pânico
- consistem em períodos de intensa ansiedade, geralmente com início súbito
e acompanhados por uma sensação de catástrofe iminente. A
freqüência das crises varia de pessoa para pessoa e sua duração é
variável, geralmente durando alguns minutos.
No geral, as crises de pânico apresentam pelo
menos quatro dos seguintes sintomas: taquicardia, falta de ar, dor ou
desconforto no peito, formigamento, tontura, tremores, náusea
ou desconforto abdominal, embaçamento da visão, boca seca, dificuldade de
engolir, sudorese, ondas de calor ou frio, sensação de irrealidade,
despersonalização, sensação de iminência da morte.
Há crises de pânico mais completas e outras
menores, com poucos sintomas.
Geralmente as crises ou ataques de pânico se
iniciam com um disparo inicial de ansiedade,
que logo ativa um medo das reações que ocorrem no corpo.
Nesta hora surgem na mente uma série
de interpretações negativas sobre o que está ocorrendo, sendo
bastante comuns quatro tipos de pensamentos catastróficos: de que a
pessoa está perdendo o controle, que vai desmaiar, que está enlouquecendo
ou que vai morrer.
No intervalo entre os ataques a pessoa costuma
viver na expectativa de ter uma novo ataque. Este processo, denominado ansiedade
antecipatória, leva muitas pessoas a evitarem certas situações e a
restringirem suas vidas.
A Classificação
Diagnóstica
O Transtorno do Pânico é reconhecido pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) como um Transtorno Mental, constando da
sua Classificação Internacional de Doenças (CID 10). No DSM
(Diagnostic and Statistical of Mental Disorders) da Associação Americana de
Psiquiatria o Transtorno do Pânico faz parte dos Transtornos de
Ansiedade juntamente com a Agorafobia, a Fobia Social, a Fobia Específica,
o Transtorno de Ansiedade de Separação e o Transtorno de Ansiedade Generalizada
(DSM5 - 2013).
Enquanto nas Fobias Simples, por exemplo, a
pessoa teme uma situação ou um objeto específico fora dela, como fobia de
altura, na Síndrome do Pânico a pessoa teme o que ocorre em seu
próprio corpo, como se suas reações fossem perigosas.
As pessoas com agorafobia também podem apresentar
ataques de pânico. A agorafobia é um estado de ansiedade relacionado a estar em
locais ou situações onde escapar ou obter ajuda poderia ser difícil caso a
pessoa tenha um ataque de pânico. É mais comum ocorrer em espaços abertos, em
ambientes cheios de gente, em lugares pouco familiares e quando a pessoa se
afasta de casa. Pode incluir situações como estar sozinho, estar no meio
de multidão, estar preso no trânsito, dentro do metrô, num shopping, etc.
As pessoas que desenvolvem agorafobia geralmente se
sentem mais seguras com a presença de alguém de sua confiança e acabam elegendo
alguém como companhia preferencial. Este acompanhante funciona como um
"regulador externo" da ansiedade, ajudando a pessoa a se sentir menos
vulnerável a uma crise de pânico.
O Início
das Crises de Pânico
A ansiedade é uma reação emocional natural
que ocorre quando a pessoa ser vulnerável e na expectativa de um perigo.
Quando a resposta emocional de ansiedade é muito intensa e repentina
ocorre uma crise de pânico, com uma sensação de catástrofe iminente.
Qualquer pessoa está sujeita a uma eventual
crise de pânico, quando exposta a um estresse muito alto, quando inundada
por emoções internas ou vivendo situações que a leve a se sentir muito
vulnerável e desamparada. Esta reação faz parte do espectro normal de reações
emocionais, apesar de não ser frequente. Assim, muitos indivíduos tem uma crise
de pânico isolada, sem desenvolver um padrão de crises repetidas que
caracteriza a Síndrome do Pânico.
Na Síndrome do Pânico, a partir de uma crise
inicial de pânico a pessoa começa a apresentar crises repetidas, sentindo-se
muito insegura e temendo a ocorrência de novas crises.
Há alguns fatores que levam uma pessoa a
desenvolver este padrão repetitivo de crises que caracteriza a Síndrome do
Pânico.
Pesquisas mostram que eventos difíceis que
ocorreram nos últimos dois anos da vida podem contribuir para desencadear as
crises de pânico. Os eventos podem ser de vários tipos como separação, doença,
perdas, violência, traumas, crises existenciais, crises profissionais, mudanças
importantes na vida etc.
Estes eventos acentuam o estado de vulnerabilidade
para uma pessoa desenvolver Síndrome do Pânico.
Outros fatores também podem tornar uma pessoa mais
vulnerável a desenvolver um Transtorno de Pânico, como ter nascido com um
temperamento mais ansioso, ter tido ansiedade de separação na infância, ter
sido criado por pais ansiosos, etc.
Um fator importante para o desenvolvimento do
Pânico é que estas pessoas geralmente têm falhas no processo de auto-regulação
emocional, ficando ansiosas e não sabendo como se acalmar.
Geralmente as primeiras crises de pânico acabam
sendo vividas como uma experiência traumática. Quando dizemos que uma
experiência foi traumática, significa que ela fica registrada num circuito
específico de memória emocional (“memória implícita”) que passa a disparar a
mesma reação automaticamente, sem a participação da consciência. Sempre que
aparecem algumas reações similares no corpo inicia-se uma nova crise de pânico.
A combinação destes fatores contribui para que
alguém venha desenvolver Síndrome do Pânico.
Medo das Reações do
Corpo
Na Síndrome do Pânico, várias reações do corpo que
estavam presentes nos primeiros ataques de pânico ficam associadas a perigo e
passam, a partir daí, a funcionar como disparadores de novas crises.
Geralmente as crises de pânico se iniciam
a partir de um susto - consciente ou não - em relação a estas reações.
Sempre que as reações do corpo reaparecem, dispara-se automaticamente ansiedade
e pode se iniciar uma crise de pânico.
As reações corporais temidas podem ser
variadas como as batidas do coração, falta de ar, tontura, formigamento, enjoo,
escurecimento da visão, fraqueza muscular etc.
Numa crise de pânico a pessoa reage frente aquilo
que seu cérebro interpreta como um perigo. Não há um perigo
real, apenas uma hiperativação do circuito do medo que dispara um
alarme na presença de algumas reações corporais que ficaram associadas a
perigo.
A presença destes gatilhos corporais pode
disparar ansiedade mesmo quando a pessoa não tem consciência
deles. Pesquisas apontam, por exemplo, que numa crise de pânico
noturna, reações corporais que ficaram associadas a perigo
surgem com a pessoa ainda dormindo e disparam uma reação de
ansiedade que acorda a pessoa, muitas vezes já tendo uma
crise. Enfraquecer esta associação reações do corpo-perigo, que dispara
uma crise de pânico é um dos focos do tratamento.
É comum a pessoa viver ansiosamente o que
poderia ser vivido como sentimentos diferenciados. Numa situação que
poderia despertar alegria, a pessoa se sente ansiosa; numa situação que
provocaria raiva ela também se sente ansiosa. Qualquer reação interna ou
sentimento mais intenso pode disparar reações de ansiedade.
A pessoa faz constantes interpretações
equivocadas e catastróficas de suas reações e sensações corporais,
achando que vai ter um ataque cardíaco, que está doente, que vai desmaiar, que
vai morrer, etc.
Esta perda de discriminação da paisagem interna
compromete seriamente a vida da pessoa, pois esta se sente ameaçada
constantemente por suas próprias sensações corporais. O corpo passa a ser
a maior fonte de ameaça. Perder a confiança no funcionamento do corpo produz a
um sentimento de extrema vulnerabilidade.
Curto-circuito
Corpo-Emoção-Pensamento
Podemos identificar a emoção de medo/ansiedade
ocorrendo em três níveis:
- como reações fisiológicas: alterações nos
batimentos cardíacos, na pressão sanguínea, hiperventilação, suor, etc
- como reações emocionais: ansiedade, medo, apreensão,
desamparo, desespero etc
- como reações cognitivas: preocupação, pensamentos
negativos, ruminações etc
O estado emocional de ansiedade produz reações
fisiológicas como taquicardia e respiração curta, por
exemplo. A pessoa com Pânico tende a interpretar estas reações
como perigosas - sinal de doença, de catástrofe iminente, etc. Estas interpretações,
na forma de pensamentos catastróficos, acabam por produzir mais
ansiedade, o que por sua vez aumenta ainda mais as reações fisiológicas
.... reforçando assim os pensamentos catastróficos.
Cria-se assim um curto-circuito infindável
onde as reações fisiológicas naturais de medo/ansiedade são
interpretadas equivocadamente como perigosas, o que acaba por
produzir mais ansiedade, que por sua vez alimenta os pensamentos
catastróficos, num processo sem fim. Enquanto a pessoa não interromper este curto-circuito
ela não consegue se livrar das crises de pânico.
Prisioneiro do Futuro
A ansiedade é uma emoção de expectativa de
perigo, de uma ameaça que pode ser difusa, não claramente identificada. A
mente ansiosa acaba imaginando cenários, se projetando em situações
sentidas como potencialmente ameaçadoras: "e se... e
se acontecer... eu vou passar mal...".
O estado de ansiedade leva a automatismos no
processo de atenção e pensamento. A atenção passa a se deslocar
descontroladamente, monitorando o corpo e o ambiente em busca de algo que possa
representar perigo. O enfraquecimento da capacidade de controle
voluntário da atenção está relacionado à dificuldade de concentração
frequentemente relatada pelas pessoas ansiosas.
Sob ansiedade a mente é tomada por um
fluxo intenso de preocupações, pensamentos negativos e ruminações e há
pouco domínio da mente.
Assim, o ansioso vive boa parte do tempo tomado de
expectativa ansiosa e tem dificuldade de se sentir presente e
inteiro no momento atual.
Neste contexto, criar presença e fortalecer a
atenção são focos importantes no tratamento.
O ser humano dispõe de dois processos
básicos de regulação emocional: auto-regulação e regulação pelo vínculo.
Através do processo de auto-regulação emocional
podemos regular o nosso próprio estado interno, nos acalmando, nos
contendo, nos motivando etc.
Através do processo de regulação pelos
vínculos, podemos influenciar reciprocamente a fisiologia e os afetos um do
outro e assim podemos nos acalmar e nos regular nos relacionamentos com
pessoas de nossa confiança. Os dois processos são normais,
necessários e importantes ao longo da vida.
Nas pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico
encontramos problemas nestes dois processos, tanto uma precária
capacidade de auto-regulação como um enfraquecimento nos processos de
regulação pelos vínculos, muitas vezes decorrentes de traumas de
relacionamentos e ansiedades infantis que se reatualizam.
Tomada pela ansiedade nas crises, mas também num
grau menor no período entre as crises, a pessoa com pânico não sabe
como apagar o fogo que arde dentro de si. Daí a importância de desenvolver
bem os processos de auto-regulação e de regulação pelo vínculo.
A qualidade da relação com a própria excitação
interna começa a se moldar nas experiências precoces de vida. Inicialmente a
mãe ajuda a regular o corpo da criança até que o corpo um pouco mais maduro
possa se auto-regular. Observa-se que nas pessoas com Síndrome do Pânico esta
função não está bem desenvolvida e a pessoa sente-se facilmente ansiosa
e vulnerável frente as reações que dominam o seu corpo.
É comum, por exemplo, as pessoas que
desenvolvem algum transtorno de ansiedade terem tido mães
ansiosas, emocionalmente hiper-reativas, que ao invés de acalmarem a criança,
a deixavam mais assustadas a cada pequeno incidente, como um
tropeção ou um simples resfriado.
Experiências de vida desde a infância precoce podem
atrapalhar o desenvolvimento da capacidade de
auto-regulação, tornando uma pessoa com baixa tolerância à
excitação interna. Isto aumenta a vulnerabilidade da pessoa aos
transtornos ansiosos como a Síndrome do Pânico.
Muitas pessoas com Pânico costumam solicitar a
presença constante de alguém para que se sintam mais seguras. Buscam
compensar a sua dificuldade de auto-regulação através de uma regulação pelo
vínculo.
Quando duas pessoas estão conversando, elas estão
em contato, mas não necessariamente em conexão. Contato é
uma interação de presença, que pode ser superficial, enquanto conexão é
uma ligação profunda que ocorre mesmo quando as pessoas estão distantes. Duas
pessoas podem estar em contato, conversando, mas com baixíssima conexão,
como numa situação social formal. Por outro lado, duas pessoas podem estar
fisicamente distantes, e portanto sem contato, mas se sentirem conectadas.
Esta distinção entre contato e conexão
é muito importante para compreender o que ocorre na situação que produz as
crises de pânico.
Muitas pessoas relatam não ter crises de
Pânico enquanto estão acompanhadas de alguém confiável. Porém, isto é
verdadeiro enquanto elas se sentem conectadas com esta pessoa.
Quando a outra pessoa está ao lado - portanto em contato -
mas sem conexão emocional, a crise de Pânico pode se
instalar com mais probabilidade. Algumas pessoas chegam a relatar
a sensação de perda a conexão com o outro antes
de uma crise de pânico eclodir.
A pessoa com pânico geralmente conhece a
sensação de "estar ausente", desconectada, se
sentindo distante mesmo de quem está ao seu lado.
A conexão com o outro parece prevenir crises de
ansiedade por oferecer uma proteção através do vínculo, uma
garantia que protege da sensação de desamparo e vulnerabilidade. Nesta
situação, o corpo da pessoa confiável funciona como um "assegurador
do funcionamento normal do corpo" da pessoa com pânico. Na ausência da
conexão com o outro, o corpo poderia se desregular e a sensação de pânico
aparecer.
A regulação pelo vínculo ocorre, por
exemplo, quando a mãe acalma a criança assustada, pegando-a no colo,
dirigindo-lhe palavras num tom de voz sereno, ajudando deste modo a diminuir a
ansiedade e a agitação da criança. Este processo envolve o estabelecimento
de um vínculo com uma comunicação profunda de estados emocionais, com conexão
e não apenas contato.
É comum as pessoas que desenvolvem Pânico terem
tido experiências vinculares traumáticas, que podem envolver perdas,
rompimentos, abandono, etc. Estes traumas prejudicaram a capacidade da
pessoa estabelecer e manter conexões emocionais profundas, fator essencial para
a regulação emocional pelo vínculo.
Assim a pessoa pode algumas vezes se sentir
protegida com a presença de alguém de sua confiança, mas acaba voltando ao
estado de vulnerabilidade tão logo esta pessoa se afaste ou ela perca a conexão. Há
uma precariedade na conexão vincular que se torna inconstante e
frágil.
Há uma relação significativa entre o Pânico e as
crises de ansiedade disparadas pelas situações de separação na infância. Uma
boa parte das pessoas que desenvolvem Transtorno do Pânico não conseguiu
construir uma referência interna do outro (inicialmente a mãe) que lhe
propiciasse segurança e estabilidade emocional. Esta falta de confiança pode
trazer, em momentos críticos, vivências profundas de desconexão e
desamparo, disparando crises de pânico.
A experiência do Pânico é muito próxima do
desespero atávico de uma criança pequena que se sente sozinha, uma
experiência limite de sofrimento intenso, de sentir-se exposta ao devir,
frágil, desp rotegida, sob o risco do aniquilamento e da morte.
As pessoas com Pânico sofrem com uma falta de
conexão básica, falta de conexão e confiança nos vínculos e falta de conexão e
confiança no corpo, o que leva a uma vivência de insegurança,
com sentimentos de fragilidade, vulnerabilidade e desamparo.
O TRATAMENTO
Há algumas diretrizes importantes para o tratamento
da Síndrome do Pânico:
1 - Etapa Educativa: compreender o que
é o Pânico, assumindo a atitude certa para lidar com a
ansiedade e as crises.
Os sintomas do pânico são intoleráveis enquanto não
compreendidos. A crise de pânico é um estado de intensa ansiedade, na qual
o corpo da pessoa reage como se estivesse sob uma forte ameaça.
Compreender este processo é fundamental para a sua superação. Nesta etapa
vamos aprender o que é a ansiedade, o que ocorre numa crise de
pânico, o papel do curto-circuito emoção-corpo-pensamento na manutenção do
pânico, os processos de auto-regulação, de regulação pelo vínculo, etc.
A compreensão do Transtorno Pânico e
dos Princípios do Tratamento favorece uma atitude construtiva e
participativa, assim como o estabelecimento de uma aliança terapêutica para se
desenvolver um bom trabalho.
2 - Auto-gerenciamento: desenvolvendo a
capacidade de regulação emocional.
A pessoa com pânico precisa desenvolver uma
melhor capacidade de regulação emocional, aprendendo a
influenciar seu estado emocional, regulando o nível de
ansiedade, diminuindo assim o sentimento de vulnerabilidade e
a incidência de novas crises.
Este processo é possível pelo aprendizado de técnicas
de auto-gerenciamento. Utilizamos um amplo repertório de técnicas de
auto-gerenciamento que incluem trabalhos respiratórios, técnicas de
direcionamento da atenção, fortalecimento da capacidade de concentração,
técnicas visuais variadas (convergência binocular focal, percepção de
campo etc), reorganização da forma somática através do Método dos Cinco
Passos, técnicas de relaxamento etc.
Estas técnicas de auto-gerenciamento ensinam à
pessoa como influir sobre os seus estados internos, desenvolvendo a capacidade
de auto-regulação.
Através do manejo voluntário dos padrões
somático-emocionais que mantém o estado de pânico pré-organizado - a arquitetura
da ansiedade - podemos reorganizar e transformar estes padrões que
mantém o gatilho do pânico armado, pronto para disparar novas crises.
Estas técnicas têm uma forte eficácia ao
influenciar, por ação reversa, os centros cerebrais que
desencadeiam as respostas de pânico, diminuindo o nível de ansiedade e a
intensidade das crises.
3 - Aumentar a tolerância à excitação interna.
A pessoa com pânico tende a interpretar as reações
de seu corpo, que fazem parte do estado ansioso, como se
fossem sinais catastróficos, indicadores de um possível perigo, como um
desmaio, um ataque cardíaco iminente, sinal de perda de controle, etc. É
necessário enfraquecer esta associação automática onde a presença de algumas
sensações corporais disparam uma reação automática de ansiedade, a se inicia o
processo que leva ao pânico.
Para ajudar no enfraquecimento desta associação
corpo-perigo e aumentar a tolerância ao que é sentido, utilizamos dois
caminhos básicos.
(1) Técnicas de desensibilização, onde utilizamos
exercícios de exposição gradual às sensações corporais temidas, processo
denominado "exposição interoceptiva".
(2) Técnicas de auto-observação, com atenção
dirigida às reações da ansiedade e criação de um diálogo com as mensagens emocionais
não ouvidas que o corpo está expressando.
Estes recursos ajudam a aumentar a
tolerância à excitação interna e na familiarização com
as reações do corpo, as emoções e sentimentos. É importante a pessoa
ensinar ao seu cérebro como as sensações corporais não são
perigosas, e como a ansiedade é apenas uma emoção que expressa
uma expectativa de perigo, mas não é perigosa em si.
4 - Desenvolver um "eu observador",
permitindo diferenciar-se dos pensamentos ansiosos.
Sob estado de ansiedade a pessoa é inundada de
distorções cognitivas, com pensamentos que se projetam no futuro esperando pelo
pior e interpretando as sensações em seu corpo como sinais de perigo
iminente.
É importante trabalhar no desenvolvimento da
capacidade de auto-observação identificando e diferenciando-se dos pensamentos
catastróficos que derivam da ansiedade e contribuem para se criar
mais ansiedade.
Neste processo a pessoa aprende a observar e
reconhecer seus padrões de pensamentos e suas expectativas catastróficas sem
ser dominada por eles. Aprende a ancorar o ego no “eu que observa” e não no
tumultuoso “eu que pensa”.
É importante também desenvolver a
capacidade focalizar a atenção como estratégia para se diminuir a
ansiedade. Quando a pessoa consegue criar presença e focar sua atenção, a
ansiedade diminui significativamente. Para atingir estes
objetivos, utilizamos várias técnicas de auto-observação e fortalecimento
da capacidade de direcionamento da atenção.
5 - Desenvolver a capacidade de regulação
emocional através dos vínculos.
Além da capacidade de auto-regulação é
importante fortalecer a capacidade de se regular pelos vínculos, o que
envolve desenvolver a capacidade de estabelecer e sustentar conexões
profundas e vínculos de confiança. Este processo vai permitir que a pessoa
supere o desamparo que a mantém vulnerável às crises de Pânico.
Neste processo revemos a história de vida de
relacionamentos, incluindo os traumas emocionais que possam ter
comprometido a confiança e potência vincular. Buscamos ajudar
na reorganização dos padrões vinculares em direção a relações mais
estáveis que possam permitir criar uma rede de vínculos e conexões mais
previsíveis, essenciais para a proteção das crises de Pânico.
6 - Elaborar outros processos psicológicos
atuantes
É importante mapear os fatores que estavam
presentes quando a Síndrome do Pânico começou e que podem ter contribuído para
a eclosão das crises.
Neste contexto podem estar presentes ambientes
e eventos estressantes, assim como crises existenciais, crises em
relacionamentos, crises profissionais e transições, como
mudanças de fases da vida, por exemplo. A desestabilização emocional
trazida por estes eventos poderia produzir estados internos de
fragilidade e vulnerabilidade, responsáveis pela eclosão das
primeiras crises de pânico.
Num nível mais profundo buscamos investigar e
trabalhar as memórias de experiências de vulnerabilidade e
traumas que poderiam estar se reeditando nas experiências atuais
de pânico. Do mesmo modo é importante rever os padrões de
relacionamento com mãe/pai na infância, pois padrões ansiosos e ambivalentes de
vínculo podem ter uma forte influência sobre o aparecimento e
manutenção de transtornos de ansiedade na vida adulta.
Os melhores resultados são obtidos por um
tratamento que contemple todos estes objetivos: a compreensão do processo do
pânico, o desenvolvimento da capacidade de auto-regulação, o aumento da
tolerância à excitação interna, o desenvolvimento do eu que observa,
o desenvolvimento da capacidade de regulação pelo vínculo e a elaboração
dos processos de vida que levaram ao Pânico.
Uma combinação destes objetivos é a melhor solução
para um tratamento eficaz da Síndrome do Pânico.
Os remédios podem ser recursos auxiliares
importantes para o controle das crises de pânico, trabalhando conjuntamente com
a psicoterapia para ajudar na superação da Síndrome do Pânico.
Porém, há algumas ponderações sobre
a sua utilização . Primeiro, é necessário ter claro que os remédios não
ensinam. Eles não ensinam à pessoa como ela própria pode influenciar
seus estados internos e assim a superar o sentimento de impotência que o
pânico traz. Não ensinam a pessoa a compreender os sentimentos e experiências
que desencadeiam as crises de pânico. E não ajudam a pessoa a perder o
medo das reações de seu corpo e a ganhar uma compreensão mais profunda
de seus sentimentos. Os remédios - quando utilizados - devem ser vistos como
auxiliares do tratamento psicológico.
Algumas pessoas optam por um tratamento conjugado
de medicação e psicoterapia enquanto outras optam por tratar o pânico somente
com uma psicoterapia especializada. Na psicoterapia especializada utilizamos
técnicas de auto-gerenciamento – para manejar os níveis de ansiedade e
controlar as crises – e ao mesmo tempo trabalhamos as questões
psicológicas envolvidas. A opção mais precária seria tratar o pânico somente
com medicação, visto que o índice de recaídas é maior quando há somente
tratamento medicamentoso do que quando há também um tratamento psicológico. Os
remédios mal administrados podem acabar mascarando por anos o sofrimento ao
invés de ajudar a pessoa a superá-lo.
Atualmente é possível tratar a pessoa com Síndrome
de Pânico sem a utilização de medicação e temos obtido bons resultados tanto
com pessoas que estão paralelamente tomando medicação como com aquelas que
preferem não tomar remédios.
Melhora: Um Horizonte
Possível
Para uma pessoa ficar boa do Pânico não
basta controlar as crises, é necessário integrar as sensações e sentimentos que
estavam disparando as crises e assim superar o estado interno de fragilidade e
desamparo.
A melhora advém quando a pessoa torna-se capaz de
sentir-se identificada com seu corpo, capaz de influenciar seus estados
internos, sentindo-se conectada com os outros à sua volta,
podendo lidar com os sentimentos internos, se reconectando com os fatores
internos que a precipitaram no Pânico e podendo lidar com eles de um modo mais
satisfatório.
Superar a experiência da Transtorno de Pânico pode
ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal, de uma retomada vital e
contemporânea do processo psicológico de vida de cada um.
Artur Scarpato : Psicólogo Clínico (PUC SP).
Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Especialização em Psicologia
Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da U.S.P. e em Cinesiologia
Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Desenvolve desde 1995 um
tratamento especializado para pessoas com Síndrome do Pânico.
Artur Scarpato - Psicologia Clínica
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